Línguas estranhas, o que foram ou o que são?


INTRODUÇÃO: Hoje é comum ver pessoas nas igrejas falarem coisas em suas orações que nós não entendemos e nem tem semelhança com idioma algum sobre a terra. Eles dizem que isso é o dom de línguas mencionado em Atos dos Apóstolos e em Coríntios 12 a 14. Mas seria mesmo essas orações feitas em outras línguas como no tempo dos Apóstolos? Estaria Deus restituindo esse dom á Igreja nestes últimos séculos? É o que analisaremos a seguir.

O que foi o dom de línguas de Atos 2:1-19?

Os pentecostais dizem que as línguas faladas ali eram de anjos, as mesmas que eles falam hoje em suas orações. Tenho dificuldade de crer nisso por causa do que o próprio texto diz:

"E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.
 E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu.
E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.
E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando?
Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?"

Atos 2:4-8

O texto diz que o povo ouvindo o barulho das línguas maravilharam-se pois ouviam os Apóstolos glorificarem a Deus em suas próprias línguas maternas, ou seja, em seus próprios idiomas sem nunca terem tido aulas. Ali tinha gente do Egito, Líbia, Mesopotâmia, Ásia e etc. Esse povo ouvia os Apóstolos, não em línguas de anjos ou idiomas esquisitos e desconhecidos mas os ouvia falar em Egípcio, Asiático, Mesopotâmios e na língua dos povos ali presente. Isso por si só já desmonta a ideia de que as línguas ali faladas eram estranhas no sentido de incompreensíveis aos homens, como alegam certos pentecostais.

Um pastor de um amigo meu disse em plena escola dominical que aí em Atos ocorreram dois movimentos de línguas. O primeiro ocorreu na chegada do Espírito Santo, onde os Apóstolos falaram em línguas estranhas e desconhecidas pelos humanos e o segundo ato do Espírito ocorreu quando os Apóstolos saíram na frente do cenáculo e pregaram ao povo; nesse ato os Apóstolos falaram em idiomas. Isso é ridículo por pelo menos dois motivos:

1° O texto não faz tal divisão em momento algum, ele narra-o como sendo um evento único e indivisível. Para dividir esse evento teríamos que esvaziar o texto, mudar tudo o que foi dito, inventar um texto novo ou ferir a regra do contexto. Haja imaginação da parte desse dito pastor!

2° A palavra grega que aparece em todo o texto referente ás línguas estranhas é γλωσσαι significando IDIOMAS e a palavra que segue línguas nesse texto  é ξενας  significando estrangeiro. Ou seja o texto diz que as línguas são estrangeiras e não estranhas, são idiomas estrangeiros. Isso acabaria com o debate agora mesmo mas ainda tem mais uma coisa a respeito desse dom e está em Marcos 16:17.  O adjetivo usado para designar a palavra "novo" é καιναις que não significa algo novo no sentido de um novo tipo que acabou de nascer, mas no sentido de novidade, algo não costumeiro. Nesse sentido o texto fala que a língua que seria nova era um idioma humano ainda não falado pelos discípulos até aquele momento como se pode comprovar no texto de Atos 2. Seria uma novidade para eles falarem em Egípcio sem nunca terem estudado tal "língua". Línguas estranhas é uma tradução pobre do texto grego. O correto é línguas estrangeiras como algumas Bíblias trazem escritas em tais textos.

Encerra-se aqui a ideia descabida de que as línguas que os Apóstolos receberam em pentecostes eram angelicais ou extraterrestres como querem impor os pentecostais. Eram idiomas inteligíveis como os textos mostram ser de forma clara. Se não fossem, como os visitantes de Jerusalém poderiam entendê-los?

Restituição desse dom?

Tive conhecimento de uma criança que começou a falar em casteliano enquanto orava em casa sem nunca ter tido contato com tal idioma. Soube também de um caso na África que um missionário começou a entender o que falavam os africanos e começou a pregar para eles. Fora esses dois casos, que por sinal não fui testemunha ocular, não sei de mais nenhum. A criança é prima de um amigo meu, então foi o mais próximo que cheguei de algo assim. Creio que seja perfeitamente possível tais coisas acontecerem para servir de sinal contra os incrédulos como diz a Escritura. Mas não é esse tipo de línguas que vemos nas igrejas... com certeza não. Deixo a cargo seu crer ou não nesse testemunho.

Outro tipo de línguas?

Não serei estúpido ao ponto de dizer que Deus não pode inventar um novo idioma para se comunicar com cada Eleito sobre a terra se assim o desejar. Porém também não creio nessa banalização do dom de línguas presente na Igreja. Muita gente emocionada com as coisas de Deus pensa estar falando em línguas quando embola sua língua na oração. Essas pessoas são sinceras, são filhas de Deus mas estão equivocadas quanto a isso. Sentem tanta vontade de conhecer mais o Deus da Bíblia e de viver as coisas preditas nela que acabam se envolvendo emocionalmente com isso e seu coração lhes prega uma peça. Porém penso ser possível Deus permitir uma comunicação mais particular com cada eleito como por exemplo uma nova língua que só Ele entende, afinal Ele nos dará um nome que, além de quem recebe, só Ele saberá depois da ressurreição (Ap 2:17)! Por que não uma nova língua particular da cada crente? Isso é possível e não tenho como perverter o texto seguinte:

"Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios."

1 Coríntios 14:2

"O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja."

1 Coríntios 14:4

"Por isso, quem fala em língua, ore para que a possa interpretar.
Pois, se oro em língua, meu espírito ora, mas a minha mente fica infrutífera.
Então, que farei? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento."

1 Coríntios 14:13-15

1° Entenda que Paulo está escrevendo a uma igreja que possuía TODOS os dons inclusive o de interpretar línguas estrangeiras. Logo, se essa língua fosse humana teria quem interpretasse e a Igreja seria edificada junto com o falante. Porém ele diz que ninguém entende esse idioma pois ele não é dito aos homens mas a Deus. Dá a impressão de ser um tipo de oração particular.

2° Ora, se essa língua desconhecida não é para os homens mas para Deus, esta não pode ser um idioma humano! Diz:" em espírito fala mistérios." Mistérios são segredos, coisas particulares entre Deus e esse indivíduo. Logo, existe sim a possibilidade de alguns pentecostais estarem certos.
Muitos teólogos tradicionais tem dito para deixarmos esse verso de canto pois ele está isolado e outros tem dito que mesmo nesse caso refere-se a idiomas humanos. Fato é que os pentecostais podem ter razão a respeito de línguas desconhecidas fornecidas pelo Espírito Santo para a oração pessoal do crente e sua edificação. Não consigo ver isso como heresia já que não ofende nenhuma doutrina em particular a não ser nossa tradição histórica e litúrgica. A única coisa que esse costume ofende é o nosso ego e nada mais. Nos sentimos ofendidos em ver alguém ser crente e não crer ou agir da mesma forma que nós. Se é heresia, prove, pois eu não tenho como fazê-lo sem adulterar a Escritura!

Isso é uma experiência particular de cada pessoa e não faz do tal nem melhor nem pior que ninguém. Se Deus estiver dando um idioma novo para que seus filhos se alegrem junto a Ele ou não, não cabe a mim nem a você condenar, isso é da fé particular de cada um. O que não pode existir são essas aberrações que vemos no meio pentecostal, gente pulando e rodando descontroladamente, falsas profecias e revelações escabrosas que destroem famílias e ministérios inteiros. Isso sim é heresia e é diabólico! Pessoas dançando como se estivessem possessas por exus, doutrinas extra-Bíblicas oriundas de visões, invencionísmo  barato e práticas místicas  semelhantes as do candomblé, isso sim deve ser combatido com mão de ferro! 

Existem pessoas ensinando a falar em línguas, e eu vi isso quando fui do M-12 por dois anos. Presenciei meu pastor na época mandando um jovem imitar alguém que estivesse do lado dele falando em línguas, segundo esse pastor, Deus concederia a ele o dom por ver que ele estava se empenhando em obtê-lo. Que absurdo! Que nojo! É isso que devemos combater.

Hoje estou numa igreja tradicional mas não condeno quem fala em línguas de forma moderada e sem essas maluquices citadas acima (se é que de fato são línguas). Acho saudável e não vejo pecado nisso e se não posso provar com a Escritura que seja pecado, por que vou condenar como se fosse? 

Existem coisas mais sérias pra eu me preocupar do que com quem fala em línguas ou dos que PENSAM que estão falando em línguas. Deixa o cara ser feliz.... se ele prega para a glória de Deus, crê nas doutrinas da Graça, se porta como Cristão e vive em amor por que devo condená-lo? Se ele fala em línguas ou pensa que fala, isso é um problema dele não meu! Evite condenar e zombar dos sinceros, mesmo porque se você estiver errado estará pecando contra o Espírito Santo ao condená-lo e zombar dele.

Que venham as pedradas!! Mas se errei em algum ponto estou pronto a ser corrigido e a aprender mais com os irmãos, desde que seja dentro das Escrituras.

Efatá!!


Deivie Darson L.S

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